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    O primeiro livro que revisei

    Memória de uma estreia profissional — Gratidão professor Fernando Tadeu, por plantar essa semente logo cedo em minha vida. 

    Por Jucelaine Carvalho

    Capa do artigo: O primeiro livro que revisei

    Lembro do convite, para mim inusitado, enquanto andávamos pelos corredores da faculdade, entrando de sala em sala, fazendo propaganda para nossa candidata à reitora da UFMT: "quer me ajudar na revisão do meu livro?". 

    Tratava-se do Professor, Mestre, Fernando Tadeu. Profissional muito querido por todos na faculdade. Era o meu primeiro trabalho profissional como revisora. E eu não sabia, ainda, que o ofício editorial começa exatamente nesse gesto: receber um texto que não é seu e tratá-lo como se fosse.

    O que eu pensei que seria

    Antes daquele original, eu acreditava que revisar fosse, sobretudo, encontrar erros. Caça às vírgulas, à concordância, ao estrangeirismo solto, ao gerúndio em excesso. 

    Imaginei que abriria o texto, faria marcações de caneta vermelha em cada falha encontrada, devolveria a ele e seguiria adiante. Era assim, na minha cabeça, que se revisava um livro.

    O que de fato foi

    Bastaram as primeiras dez páginas para entender que revisar era outra coisa. Era ouvir a voz do autor e cuidar para não sobrepor a minha. Era saber quando uma repetição era falha e quando era ritmo. Saber quando uma frase longa era erro e quando era respiração.

    Era, sobretudo, conversar. Cada marcação era também uma pergunta: foi mesmo isso que você quis dizer? Existe uma forma mais clara? Esta vírgula está te servindo?

    O que ficou

    O professor Fernando, hoje Doutor e membro da Academia Mato-grossense de LETRAS - AML, me deu uma das lições mais importantes da minha vida profissional: o texto pertence sempre a quem o escreveu. O revisor não está ali para impor critério — está ali para servir à obra.

    Levei essa lição para todos os livros que vieram depois. Cada manuscrito que recebo, recebo do mesmo jeito daquele primeiro: como algo precioso e alheio, que precisa ser tratado com cuidado e devolvido melhor do que chegou.

    Revisar é um ofício de escuta. O autor escreve; o revisor cuida para que cada palavra chegue ao leitor exatamente como deve.

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